A informatização do mercado de trabalho

18/09/2023

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Por Almir Pazzianotto Pinto

Sucessivas notícias relativas ao célere avanço da Inteligência Artificial (IA), me fazem lembrar que desde a primeira Revolução Industrial, desencadeada no século 18, na batalha contra máquinas, o derrotado é o homem. O irresistível anseio humano de progredir, para satisfazer necessidades reais ou imaginárias, supera a tendência à acomodação. Não bastasse, devemos levar em conta problemas com a administração da mão-de-obra, e a insegurança jurídica que quase sempre permeia as relações de trabalho.

Registrou Jürgen Kuczynski, em Evolução da Classe Trabalhadora, que “A introdução da ferramenta mecânica na produção têxtil foi realmente um dos fatos mais interessantes em qualquer época da história industrial. Seu ponto de partida técnico consistiu no desenvolvimento acentuado da fiação e do tecido, os dois ramos principais da indústria” (Ed. Guadarrama, Madri, s/d, pág. 43, tradução livre). Segundo o historiador W.O. Anderson, “As máquinas britânicas que mais impressionaram os contemporâneos foram as que estimularam a expansão da indústria algodoeira. Em 1840, uma fábrica de algodão, empregando 750 operários e usando uma máquina a vapor de 100 hp, podia fazer trabalhar 500 mil fusos e produzir tanto fio quanto 200.000 mil operários que usassem fiadeiras manuais. Uma máquina de estampar tecido de algodão, dirigida por um único homem, poderia produzir tantos metros de estampado por hora quanto 200 homens produziam imprimindo a mão” (A Revolução Industrial1780-1914, Ed. Verbo, USP, SP, 1974, pág.46).

Sobre a Revolução Industrial, Karl Marx e Friedrich Engels, escreveram no Manifesto do Partido Comunista, cuja primeira edição alemã veio a público em 1872: “A grande indústria criou o mercado mundial, preparado pela descoberta da América. O mercado mundial acelerou enormemente o desenvolvimento do comércio, da navegação, dos meios de comunicação. Este desenvolvimento reagiu por sua vez sobre a expansão da indústria; e à medida que a indústria, o comércio, a navegação, as vias férreas se desenvolviam, crescia a burguesia, multiplicando seus capitais e colocando num segundo plano todas as classes legadas pela Idade Média” (Boitempo Editorial, SP, 1998, pág. 41.

A Revolução Industrial não avançou de forma pacífica. Vítimas do desaparecimento do trabalho, milhares de artesão se rebelaram.  O ludismo foi a expressão mais violenta da revolta, que exigiu na França, Inglaterra e Alemanha, intervenção das forças armadas. A brutal exploração da mão-de-obra assalariada, fazendo vítimas entre homens, mulheres e crianças, estimulou o início da organização da classe trabalhadora. Como escreveu J.P. Rioux, “a grade força do futuro é o sindicalismo. O patronato e os poderes públicos não se enganaram, tanto que perseguiram sistematicamente os membros dessas organizações de trabalhadores. Seu berço foi a Inglaterra” (A Revolução Industrial, Livraria Pioneira Editora, SP, 1975, pág. 164).

Desde então, a evolução tecnológica produziu maravilhas capazes de surpreender os mais céticos.  O século 20 promoveu mudanças antes inimagináveis. O avião, o automóvel, o telefone celular, admiráveis pela capacidade de reduzir tempo e distância, facilitando negócios e criando milhões de empregos bem remunerados.

O século 21 acompanha o início da Revolução Tecnológica. Cientistas e engenheiros se ocupam da criação de máquinas, capazes de ler e memorizar documentos, responder perguntas, projetar máquinas e construções, solucionar complexos problemas, fazer diagnósticos médicos, com mínima participação humana. Na agricultura a mecanização desempregou legiões de trabalhadores braçais, substituídos vantajosamente por máquinas combinadas. Em Seul, capital da Coréia do Sul, robôs são vistos no metrô, supermercados, shoppings, e restaurantes, auxiliando funcionários ou desempenhando serviços de garçons (O Estado, 6/8, pág. A24).

O uso da informatização impõe sacrifícios à sociedade. O desemprego local, e mundial alcançam níveis alarmantes. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT) são mais de 200 milhões os desempregados. Ondas intermináveis de refugiados deixam a América Central, o Leste Europeu e o norte da África, com impelidos por vagas esperanças de obter trabalho em países ricos. A Flórida e Portugal recebem brasileiros à procura de segurança e emprego.

Qual a posição do governo, dentro do cenário mundial de crise? Ocupado com o bolsonarismo, e sem política de desenvolvimento sustentável, revela-se incapaz de adotar medidas aptas a retomar o crescimento, para colocar o País em condições de ganhar espaço no mercado externo, competindo com japoneses, chineses, coreanos, indianos, tailandeses.

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião da Academia

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